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CCRP - Centro Cultural e Recreativo da Pena

CCRP - Centro Cultural e Recreativo da Pena

Nº 20 | Outil/Portunhos

Tasquinhas

Chanfana

O CCRP (Centro Cultural e Recreativo da Pena) nasceu da imperiosa necessidade de acolher o grupo cénico que, nessa época, a fim de angariar algum dinheiro para as obras na Igreja, fazia os ensaios e as suas récitas no velho Lagar de Azeite do Vale d’Anaia. Assim, alguns penenses resolvem fundar uma associação, a que deram o nome de Centro Cultural e Recreativo da Pena. Formam uma Comissão Organizadora, arrendam um edifício devoluto, no Largo da Cruz, procedem a obras de adaptação e restauro e fazem a sua inauguração em 28 de Setembro de 1957. Nasce assim o CCRP. Porém, era necessário oficializá-lo, dar-lhe personalidade jurídica. Então, essa Comissão Organizadora, a 28 de Abril de 1958, subscreve e submete à aprovação do Governo Civil os estatutos que iriam reger o CCRP. Por despacho datado de 19 de Junho de 1958, são oficialmente aprovados e legalizada esta associação.

Trajano da Costa Pinheiro, Raul Geral de Oliveira, Maria Helena Baptista Rama, Alfredo Ferreira Jacinto, Manuel Baptista Portela e Joaquim Pires dos Santos foram os sócios fundadores que integraram a Comissão Organizadora. Infelizmente já não se encontram entre nós, mas aqui lhe prestamos a nossa homenagem e o bem-haja por terem tido a iniciativa de lançar os alicerces desta associação que já conta mais de meio século.

Nos primeiros anos do “clube”, como popularmente sempre foi chamado, as pessoas ali se reuniam, ao serão, em amena cavaqueira. Não havia ainda televisão e assim se reforçavam os laços de amizade e o convívio social.

Aparece, entretanto, a tão esperada “caixa mágica”, mas o preço quase proibitivo do aparelho era incomportável para os cofres do CCRP. O espírito criativo dos dirigentes dessa época resolve o problema: pedem aos sócios, que tivessem posses para o fazer, que financiassem a compra subscrevendo “Obrigações de Caixa do CCRP”. Arranjou-se a quantia necessária para comprar o primeiro aparelho de TV que existiu na Pena. Bem, mas era necessário assegurar o pagamento das “obrigações”, por isso, cobrava-se 1 escudo a cada sócio que pretendia assistir, na Sede, ao programa televisivo. Os sócios obrigacionistas estavam isentos do pagamento ... era o juro do seu empréstimo! Quando se conseguia reunir o capital necessário para pagar uma obrigação (mil escudos) sorteava-se o nome do obrigacionista e saldavam-se as contas com esse sócio.

Nesses primeiros anos, as actividades do CCRP resumiam-se praticamente às representações teatrais do seu grupo cénico e a um baile mensal, sempre com bons conjuntos musicais dessa época, ao qual acedia muita juventude das terras vizinhas. Os sócios do Clube tinham entrada grátis e os não sócios pagavam uma entrada simbólica, entregue como donativo para a associação. Era necessário contornar as leis rígidas de então ...

O grupo cénico, agora com casa própria e um salão de espectáculos que, não sendo muito grande, levava cerca de duzentas pessoas sentadas e lhes proporcionava a comodidade que não tinham no velho lagar, continuam a levar à cena as suas peças teatrais. Era um entusiasmo nos ensaios e um “nervoso miudinho” enquanto não estreavam o espectáculo. As receitas do teatro começaram a sanear as contas do “clube”. Mas as dificuldades logísticas avolumavam-se, até porque, cada vez se exigia mais e melhor para que o espectáculo fosse um êxito. O teatro, para além da
interpretação dos artistas, também vive dos efeitos luminosos, dos jogos de luz e cor, coisa que na altura não tínhamos. A luz eléctrica, na Pena, só foi inaugurada em 5 de Outubro de 1958. A iluminação da cena era feita com candeeiros de petróleo de pressão, os afamados “petromax”, que geravam uma luminosidade de 200 ou 300 velas! Colocavam-se dois, pendurados do tecto em frente ao palco. Para não ferir a vista aos espectadores, conseguimos colocar uma protecção em lata por detrás dos candeeiros e que ao mesmo tempo servia de projector da luz para a cena. O grande problema era quando a cena exigia um escurecer ou um alvorecer! Como resolver este problema? É bem certo “que a necessidade aguça o engenho”. O espírito inventivo ajudou: uma lata redonda, sem os dois tampos (o de baixo e o de cima), descia do tecto por cima do candeeiro presa por uma corda e lentamente ia tapando a luz para escurecer, ou ia subindo, destapando lentamente a luz para simular o alvorecer! Tempos heróicos...

As dificuldades não nos faziam esmorecer, antes pelo contrário, espicaçavam-nos o brio e o desejo do grupo cénico era melhorar o nível dos espectáculos. A luz já existia melhorando a acústica e a visibilidade das cenas. Entretanto, surge a apoiar o teatro uma grande Senhora desta terra, Maria Helena Rama, herdeira do talento de seu pai, o poeta, escritor, e músico que foi Alípio Rama, a qual começa a escrever, a ensaiar e levar à cena algumas peças revisteiras, críticas de costumes e de episódios locais, que fizeram as delícias e arrancaram gargalhadas desopilantes a quantos a elas assistiram. Foi a época áurea do teatro no CCRP. A revista “Minha terra céu aberto ...” foi o maior êxito, com dez espectáculos, mantendo-se em cena durante alguns meses, sempre com lotação esgotada.

Ao longo destas décadas de existência do Clube, as sucessivas direcções que geriram os seus destinos, umas mais do que outras, sempre tentaram realizar alguns eventos culturais que justificassem a razão do nome de “Centro Cultural”. Mas é, sobretudo, no virar do século que os jovens começam a assumir a responsabilidade da gestão do CCRP e lhe imprimem uma dinâmica e uma alegria, só possível pela força da sua juventude. E são eles que, não obstante alguns apoios oficiais, se lançam numa megalómana ideia de construir uma nova Sede! E não é que o conseguiram! A obra está à vista. Foi inaugurada em 30 de Setembro de 2001, com a presença das autoridades concelhias e do Governador Civil de Coimbra, coincidindo com os festejos do 44º Aniversário.

Apareceram, a partir daí, muito mais iniciativas culturais e recreativas, entre elas, uma que, talvez pelas suas raízes populares, parece ter “pegado de estaca”. Referimo-nos ao “Encontro Regional de Gaiteiros e Mostra Gastronómica” que, ao longo das 15 edições já realizadas, é o evento que maior projecção tem dado ao CCRP. Durante estes anos, foram muitos os Gaiteiros e Grupos de Gaitas de Fole que actuaram nestes encontros, vindos de todas as regiões do País ou até mesmo da vizinha Galiza.